Eu tenho duas experiências bem distintas de viver o câncer na cavidade oral. Em 2007 tive meu primeiro câncer de língua e agora em 2016 vivo o segundo. Em face dos nove anos que separam um do outro, meus médicos não consideram uma recidiva, ainda que ambos tomaram inicialmente a parte esquerda da língua e são do mesmo tipo: carcinoma escamo-celular. O que gostaria de compartilhar nesse texto com vocês são as semelhanças e as diferenças nos recursos e tratamentos que tive a oportunidade de acessar nessas duas experiências.

Entre as semelhanças destaco a quimioterapia, que não percebi nenhum avanço de lá para cá. A cisplatina continua a mesma e seus efeitos iguais, pelo menos no meu caso. Como não suportei a dose da primeira experiência, meu oncologista dessa vez propôs uma dose menor e exames de sangue mais frequentes para controlar meu estado hematológico. Contudo, da mesma forma que em 2007, também tive que interromper os ciclos a partir do terceiro, em face de uma anemia profunda que se desenvolveu de forma semelhante à 2007.

Já em relação às diferenças, eu destaco a tecnologia da radioterapia e a estrutura de suporte para os efeitos do tratamento oncológico. Em 2007 a radioterapia que realizei atingia uma área bem extensa, envolvendo um quadrante desde os lábios até o pescoço. Agora em 2016 tive a oportunidade de realizar no CEPON a chamada “Radioterapia de Intensidade Modulada” (IMRT). Tive a indicação para esse tipo de tratamento em razão de já ter sido irradiado de modo intenso em 2007, cabendo agora um tratamento mais preciso e controlado, que preserve mais os tecidos não afetados pelo tumor. Até agora foram 15 sessões e percebi que os efeitos nocivos se concentram na boca, área onde estão direcionados os feixes de radiação que recebo diariamente. Em 2007, tive diversas complicações em razão da radioterapia, como a lesão da glândula tireódide, levando ao hipertireoidismo. Dessa vez, sinto que a “queimação” da radioterapia fica restrita à região do epitélio bucal.

Uma outra novidade dessa experiência mais recente é o suporte para prevenir e tratar os efeitos nocivos do tratamento, como a mucosite oral. Além dos bochechos tradicionais de clorexidina, camomila e nistatina, estou realizando um tratamento odontológico que inclui a terapia com laser de baixa potência, que reduz a gravidade da mucosite oral, atenuando as dores e complicações na boca. Lembro-me muito bem das dores que sentia com a mucosite oral em 2007 e me alegro em estar agora na metade do tratamento sem nenhuma dor e com poucas ulcerações na mucosa oral.

Está sendo muito interessante observar os avanços no tratamento oncológico nesses anos, como a maior disponibilidade de recursos e tecnologias. Vejo também que atualmente há muitos mais eventos científicos e literatura do que em 2007 e que, com isso, os profissionais estão mais preparados para promover a saúde dos pacientes que enfrentam o câncer numa perspectiva multiprofissional. Isso precisa ser cada vez mais difundido e democratizado. Meus dois tratamentos foram feitos prioritariamente no CEPON, que é mantido pelo SUS. Precisamos valorizar esses avanços e lutar pela manutenção e melhoria da saúde pública, fazendo com que sempre os recursos e tecnologias mais avançados estejam disponíveis para todos que deles precisem.

por Adriano Nuernberg

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